Mais um dia agitado, mais uma vez cansaço.
Que bom que você sempre encontra um jeito de me tirar do livro que estou devorando enquanto você brinca. O gato da capa não está desenhado nas páginas, filho.
Não consigo entender sua fascinação pelas páginas repletas de letras. Crianças normais gostam de desenhos, não de palavras. Imagino que você, que tem meus genes, também ache mais interessante compor os desenhos na cabeça, não vê-los prontos. Que bom que você não é normal. E que pena que criatividade não é meu ponto forte.
Queria poder inventar histórias para te contar, mas, confesso, essa é uma das minhas maiores limitações. Então, armazeno as histórias para um dia poder fazer uma releitura para você, ou me transformo e faço de As Horas Nuas um livro para uma criança de um ano e meio de idade. “Sim Antônio, o nome do gato é Rahul. Rahuuul... Você consegue falar, filho?”.
Essa palavra, filho, dita por mim, ainda me soa estranha. Lembro da primeira vez que a pronunciei, quando você tinha alguns dias. Assustei-me, depois ri. A vida é engraçada, não acha? Eu, tão egoísta nas minhas manias, abro meus livros e te chamo para compartilhar minhas leituras. De mim, isso eu não esperava.
Assim como não esperava que você, depois do convite da madrinha Dandy para entrar em casa, quase lá, voltasse e pedisse minha mão para ir contigo, para caminhar junto.
15 horas atrás

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